Adotado pelos países da União Européia no final de 2005, o IFRS (Padrões de Relatórios Financeiros Internacionais) passa a ser obrigatório para as companhias de capital aberto da comunidade financeira internacional a partir deste ano. No Brasil, a norma abrangerá um universo de sete mil empresas.
Para Paulo Martins, diretor responsável pelo desenvolvimento de Serviços Financeiros da Logica na América do Sul, mais do que simplesmente alterar a forma de apresentação dos resultados financeiros, a adaptação ao novo modelo – globalizado e padronizado – representará uma quebra de paradigma para as companhias brasileiras.
“As empresas passarão de um modelo totalmente regrado para um padrão que é totalmente interpretativo. Isso trará maior transparência e facilidade para as análises das transações globais e para a comparação da situação financeira de um banco brasileiro com um europeu, por exemplo. A competitividade será absolutamente diferente daquilo que acontece hoje em dia”.
No caminho para essa nova realidade, Martins ressalta, porém, que o COSIF (Plano Contábil das Instituições do Sistema Financeiro Nacional), modelo contábil vigente antes da determinação da Comunidade Européia, não foi extinguido e permanecerá em vigência no Brasil paralelamente ao IFRS, obrigando as empresas a divulgar seus balanços nos dois padrões, até 2012.
“Como o IFRS é um modelo interpretativo, ele tem que ser comparável. O balanço de 2010 tem que ser comparado a 2009 e assim por diante. Dessa forma, para implementar o padrão, 54 bancos brasileiros terão que processar os resultados de 2009 também em IFRS já neste ano. Com a obrigatoriedade dessas duas contabilizações, o impacto em TI é enorme”.
Velho sistema
Paulo Martins aponta que um dos principais desafios tecnológicos para as instituições financeiras brasileiras nesse cenário composto pelo IFRS e o COSIF é a necessária adaptação de sistemas bancários construídos, em média, há 30 anos, ao novo modelo contábil.
“Muitos sistemas rodam ainda em Cobol, por exemplo. A forma de cálculo do IFRS é diferente e os bancos passam a ter a necessidade de trabalhar com sistemas contábeis que suportem dois padrões de lançamentos. Imagine você aplicar essa demanda em um sistema que foi desenvolvido há 25 anos? Não tem como, eles têm que ser refeitos”.
Segundo o executivo, outra questão a ser resolvida nesse contexto são os gargalos gerados pela cultura brasileira de desenvolvimento de sistemas, que podem ser exemplificados pela grande concentração de plataformas extremamente fracionadas e não integradas.
“Quando uma operação de empréstimo de um carro entra no banco, ela é contabilizada automaticamente em um sistema produto, e não no sistema contábil. Agora imagine uma instituição que possui 30 sistemas produto. Ela terá que realizar cada processo desses de maneira duplicada para gerar a contabilização em COSIF e IFRS”.
O diretor da Logica acrescenta ainda que essa falta de integração é reforçada com os processos constantes de aquisição e fusão entre as instituições. “O banco A compra o banco B e mesmo antes da transação, cada um deles tinha pelo menos meia dúzia de sistemas de conta corrente. Isso é uma tônica, é muito comum”.
Plataforma integrada
Atenta a essas demandas e à movimentação do mercado em torno da padronização, a Logica participou de diversos projetos desse porte na Europa nos últimos 18 meses. Com base nessa experiência adquirida, a empresa trouxe ao mercado brasileiro a Central IFRS, solução customizada a partir da plataforma Bank Analyzer, da SAP.
“A grande característica da solução é a instituição ter todos os dados integrados, sem precisar alterar nenhum sistema, interface ou qualquer informação que ela tem no legado hoje. Todos os cálculos já estão desenvolvidos e todos os relatórios estão prontos. Isso vai garantir rapidez de implementação e confiabilidade na adequação”.
A Central IFRS cria um sistema único de gestão financeira que contempla as funcionalidades do Bank Analyser, integradas ao módulo SAP ERP, coletando apenas os dados necessários para a declaração nos balanços e permitindo a conversão direta do modelo COSIF para o IFRS.
Entre as vantagens proporcionadas pela solução, Martins destaca pontos como a obtenção de uma plataforma integrada, com ponto único de entrada de dados e a geração de relatórios padronizados pelo Banco Central, além do acesso a informações automáticas e seguras do processo produtivo.
Atalho para a inteligência
Uma das principais apostas da Logica neste ano, a Central IFRS já está sendo implementada em um banco brasileiro e outros oito projetos desse porte estão em fase de definição.Com base nessas iniciativas, Paulo Martins entende que o novo padrão pode trazer ganhos adicionais para as instituições que souberem aproveitar a necessária integração inerente a esse modelo.
“Você passa a ter um datawarehouse único, porque na medida em que o IFRS é um padrão contábil interpretativo, ele tem que carregar do ponto de vista, inclusive histórico, todas as informações de todas as carteiras, seja ativo ou passivo. A partir do momento em que eu tenho isso nas mãos, eu passo a ter um BI dentro do banco, com dados que anteriormente eu não conseguia acessar, em virtude da desintegração”.
Segundo o diretor, a percepção desse benefício acaba modificando a maneira com que os projetos de IFRS são vistos dentro das instituições, especialmente pelo fato da grande maioria dos bancos ter dificuldade em obter informações gerenciais.
“Eles são obrigados a comprar sistemas caríssimos para fazer BI e capturar esses dados. Estamos indo por outro lado. Você tem uma situação legal e de negócios para atender, e por trás disso, nós oferecemos um BI”.
Martins reforça ainda que o IFRS traz outro elemento importante. Com o fechamento diário da contabilidade bancária, a instituição passa a ter dados atualizados e consistentes em campos como fluxo de caixa e produção das agências, o que favorece e auxilia a tomada de decisão. “Saber o fluxo de caixa e a situação da carteira de um dia para o outro pode fazer muita diferença para lançar um produto novo e realizar uma ação diferenciada junto aos clientes”.
O executivo conclui afirmando que o IFRS é um projeto que extrapola os limites da contabilidade, pois envolve diversos níveis de uma organização bancária. “Isso abre uma oportunidade interessante para que essas instituições revejam seus processos internos e, identifiquem caminhos para reduzir custos e ampliar os lucros”.